A informática é o espaço definido pela junção da computação, comunicação e controle. Seus primeiros cinqüenta anos, como engenharia, foram basicamente delimitados pela computação, desde as máquinas abstratas dos anos trinta e quarenta, juntamente com os primeiros computadores dignos do nome, até os supercomputadores e os PCs, computadores pessoais, na década de oitenta. Nos últimos vinte anos, vimos surgir uma era da comunicação, das redes, onde o vetor de computação e o de comunicação definem um plano onde vive, por exemplo, a internet. É quase impossível imaginar, hoje, computação de forma isolada: se não está em rede, alguma rede, não existe ou não interessa... ou os dois. A rede tem, na prática, pouco mais de vinte anos e apenas dez de vida comercial. Mas foi uma década que mudou o mundo e criou as condições para que, entre outras aventuras, fosse possível começar a pensar em controle, cuja receita é associar sensores (que capturam informação do mundo real) a atuadores (que forçam comportamento de objetos por lá), usando, normalmente, computação e comunicacão para fazê-lo. Controle, para dizer o mínimo, vai integrar computação e comunicação ao mundo real e possibilitar um conjunto completamente novo de avenidas, descobertas e receitas para as coisas mais simples, complexas e inusitadas. Quer ver?
Primeira receita: pegue uma vaca; junte um cartão de rede wireless, um picocomputador tipo PDA, uma unidade de localização (que pode ser baseada em GPS), um pequeno amplificador, baterias e um alto-falante. Faça um colar com as partes não-vivas e use-o como adereço da parte viva da receita, ou seja, a vaca. Para que isso tenha alguma utilidade, instale um conjunto (pode ser pequeno) de hotspots (as estações rádio-base de redes sem fio, de banda larga) e conecte, às mesmas, um servidor (pode ser um PC) que fica na sala da sua casa, teoricamente perto (mas não tanto) das vacas, possivelmente numa fazenda onde haja muitos dos tais ruminantes. Auxiliado por software, que vai (tentar) estabelecer limites para os movimentos das vacas, crie um curral virtual desenhando-o sobre o mapa da propriedade, na tela. Ligue tudo, solte as vacas no curral virtual e pronto. Quando os animais chegarem perto dos limites estabelecidos por você, o sistema (servidor, rede, colares) entrará em ação e tentará, usando ruídos diversos (sons, urros de animais ferozes) tanger o gado de volta para o curral, evitando que a vaca vá para o brejo. Não precisa nem tanger o gado com o mouse: tudo funciona automaticamente, até você redefinir a cerca. Não há indícios de que aboios, pura e simplesmente, estejam sendo usados. A história, por mais doida que pareça, é um experimento científico e saiu na New Scientist, respeitada revista de divulgação.
Segunda receita: pegue uma projeto de casa, destas reais, de morar dentro, e todos os materiais necessários para fazer uma, pelo método contour crafting, basicamente uma forma de escultura parecida com impressão tridimensional de objetos, como se um tubo de pasta (parecido com creme dental) fosse espremido e, à medida que a pasta endurecesse (rapidamente...) um conjunto de espátulas amoldasse o material, criando, por exemplo, paredes. O robô capaz deste feito é algo parecido como uma impressora tri-dimensional, que possibilita lidar com formas mais complexas do que as que podem ser construídas, hoje, por mãos humanas e, claro, constrói seja lá o que for muito mais rápido do que as tais mãos. Parece brincadeira. Mas, de novo, está em New Scientist (e muitos outros sites), e trata-se de um projeto baseado na University of Southern California, financiado pela Degussa AG, alemã, um dos maiores fornecedores mundiais de material de construção. Se tudo correr bem, a primeira casa construída por um robô, sem qualquer tipo de ajuda, vai aparecer em 2005. Muito mais do que desiludir governos de países do terceiro mundo que pretendem gerar empregos na construção civil, o projeto da USC explora os limites da construção em situações onde humanos teriam grandes dificuldades, como embaixo d'água, em locais muito quentes ou frios e no espaço exterior e em outros planetas. Mas pode dar certo aqui...
Terceira receita: Pegue um automóvel. Solte em algum lugar. Estabeleça um destino a algumas centenas de quilômetros e lhe dê 10 horas para chegar lá. Pode haver mato, pântano e deserto no caminho, e o carro deve lidar independentemente com obstáculos, de qualquer tipo, sozinho. O automóvel, na verdade, é um robô motorizado. A competição é a DARPA Grand Challenge e o prêmio, além da glória do feito, é nada desprezíveis dois milhões de dólares, além da possibilidade de trabalhar em conjunto com o governo americanos nas tecnologias usadas para resolver o problema. Tentando chegar lá, algumas das principais universidades americanas, patrocinadas por muitas empresas, grandes e pequenas, estão desenvolvendo, hoje, partes, peças, sistemas e software que podem vir a tornar o carro do futuro independente de motorista. Tirar seres humanos da direção eliminaria, imediatamente, boa parte dos desastres criados por humanos bêbados e cansados dirigindo, às vezes irresponsavelmente. No Brasil, salvaria 50.000 vidas por ano. No topo disso, com veículos inteligentes obedecendo leis e limites do trânsito (pois programados para tal) e sem motoristas, poderíamos prescindir de guardas e patrulheiros de trânsito, uma das pragas que afeta o país.
Quarta receita: Pegue um aspirador de pó, um cortador de grama e seu cachorro, que pode estar querendo ir lá fora. Vá. Ligue os três e deixe cada um fazer o que acha que deve: o aspirador limpa o terraço, o cortador transforma a floresta que está na frente de sua casa em um jardim e o cachorro late, deita e rola, andando de um lado para outro. Os três são robôs: um Roomba, um Tora e um Sony. O Roomba atende pelo nome da fábrica, o Tora é um i-mow (eu-corto-grama) e o da Sony é um
Aibo, um cão robótico que a Sony vem melhorando desde que lançou a primeira versão há cinco anos. Aibo, ou Artifical Intelligent Robot, significa companheiro, em japonês. A Sony está trabalhando muito duro para oferecer um companheiro para a população que envelhece no mundo inteiro, mais certamente para a parte dela que tem US$1.800 dólares para pagar por um brinquedo. Mas um brinquedo que anda, reconhece o dono, está ligado na rede sem fio, tira fotos, canta, precisa de atenção... pode acabar se tornando, para muita gente que não tem condições de tratar de um animal de estimação normal, um companheiro de verdade.
Vacas informatizadas, impressoras de casas, Aibo, Roomba, i-Mow, veículos inteligentes e, logo, robôs humanóides (como Asimo, da Honda), são o começo de uma nova era da informática, quando software e hardware começam a andar e interferir de verdade, e às vezes na agenda deles próprios, em nossas vidas. A perspectiva não é nova e foi escrita e reescrita por Isaac Asimov, na série Eu, Robô e muitas outras estórias que, agora, começam a parecer apenas história futura e não ficção científica. Mas a isso, também, já estamos acostumados: Arthur Clarke, também escritor de ficção, inventou (aqui, de verdade) os satélites de comunicação geo-estacionários que hoje circundam a Terra. Vem aí, e só para quem estiver preparado, mais um admirável mundo novo...