A Motorola acaba de abrir um Application Center of Excellence (AcoE) na China, cujo foco vai ser em tecnologias para a terceira geração de celulares. A empresa já tem 1.600 engenheiros em 16 centros espalhados pelo país, e investiu mais de US$3Bi por lá. A Intel tem um laboratório de pesquisa e desenvolvimento em Beijing, de onde sai - entre outros - o Open Research Compiler, peça fundamental para construir tradutores de linguagens de programação projetadas para rodar sobre os chips da companhia. Segundo Technology Review, o laboratório da Microsoft, também em Beijing, é o lugar onde estão sendo desenvolvidas as aplicações que vão mudar o mundo. E por aí vai. Um dos planos que a China está executando muito bem é o de atrair laboratórios de pesquisa das principais corporações mundiais de informática e comunicações para o país. Isso educa, cria cultura, transfere tecnologia de ponta e de fato: quem desenvolve, aprende. Muito ao contrário das fábricas da era industrial, principalmente
hoje, quando robôs cuidam de toda a produção (e o desenho é feito algures).
Enquanto isso, como contraponto não trivial, o novo ministro das tecnologias de informação e comunicação da Índia acaba de declarar que as tecnologias celulares 3G não serão negócio e que o país irá partir direto para a quarta geração de mobilidade, começando de imediato a investir num centro nacional de excelência no assunto. De novo, pesquisa, desenvolvimento, educação. Antes que a coisa aconteça. Depois, ou mesmo durante, não é mais negócio. Os gigantes de bilhão de habitantes se movem, sabendo que seu mundo será muito importante e que ele precisa de tecnologias da informação. Precisa, aliás, é pouco: depende de. Para onde se olhar, para qualquer tipo de futuro, há informática imersa em tudo, como meio para absolutamente tudo, do rastreamento de bananas e picanhas até automóveis sem motorista (e, em breve, queiram os deuses ou não, a proibição para humanos guiarem...) e implantes de todos os tipos em gente, para resolver os mais diversos problemas. Ah, sim, o mesmo valerá para cães, sem o que a sociedade ocidental não conseguiria sobreviver. Na China, ao que parece, eles têm outras idéias.
A China (e a Índia, por seu lado) estão levando o problema de desenvolvimento nacional a sério. Sabem que as janelas de oportunidade não são muitas e que empresas e investidores internacionais têm atenção e dedicação limitadas. De muito pouco valeria, para o país que inventou o papel, a imprensa e a pólvora, estar pronto daqui a trinta anos. O horizonte de acontecimentos é agora mesmo, ao mesmo tempo em que resolve Hong Kong, entra na OMC, finge-se democrático e civilizado e faz de conta que há uma região autônoma no Tibet, com a que, lamentavelmente (segundo os comunicados oficiais emitidos na China), o Brasil concorda... Crescendo nas taxas atuais, mesmo os mais avessos e ariscos investidores e vendedores têm que pensar duas vezes antes de dizer, ou pensar, que o país não vale a pena ou que vai explodir numa grande convulsão social antes que haja mais oportunidades para todos. A província de Guangdong, pólo de desenvolvimento no sul do país, recebeu mais de 21 milhões de imigrantes legais nos últimos vinte anos. Mas vamos imaginar (e tomara mesmo, para sorte do mundo inteiro) que a China vá dar certo no longo prazo. Se isso acontecer...
A política e o poder mundiais, quando isso acontecer, porque parece que vai, serão organizadas em torno de um novo eixo. Se hoje normalmente somos resto do mundo (ROW, rest of the world, nas estatísticas e documentos internacionais para desenvolvimento e mercado...) estamos pelo menos perto do mundo, que costuma ser entendido como EUA e Europa. Se o mundo se mudar para a China e o eixo de desenvolvimento se alinhar às populações dos países da região, o que mais cedo ou mais tarde, seja lá como for, vai acabar acontecendo, o mundo irá para a Ásia e nos ficaremos ainda mais longe, pois pouco temos a ver com os grandes de lá. As viagens presidenciais à região são um bom sinal, mas é bom que sejam seguidas de atos e recursos reais, do lado de cá, para que as assinaturas façam política. Conheço de perto alguém que foi nomeado para uma comissão científica Brasil-Índia (em 2002, como parte de uma acordo que datava de 1996, que atualizava outro de 1985... nenhum dos quais havia gerado qualquer resultado) que nunca se reuniu e, claro, gerou um corre-corre quando o atual presidente foi à Índia, com membros da tal comissão, talvez cognominada a inútil, sendo destituídos pelo celular, para que novos representantes tomassem seu lugar... para fazer o quê, talvez fosse necessario perguntar...
No que tange à informática, quem deu o tom da visita à Índia foi o chanceler Celso Amorim: Nossas economias se complementam. Eles têm o software; nós temos a indústria de alimentos mais competitiva do mundo. Isso quando o Brasil estava dando os retoques finais numa política (não) industrial da qual software, exatamente o que nós talvez acabemos terceirizando para a Índia, é um dos quatro pilares fundamentais. Vamos ver se conseguimos acertar as cartas do jogo com a Índia e jogar um outro com os chineses, para não estarmos somente mudando de fornecedor. A tradição do ROW é de agir logicamente quando o assunto é desenvolvimento, o que é uma contradição em termos. Desenvolvimento não é baseado em lógica, mas em visão, ambição, educação, inovação e investimento, de longo prazo, em coisas que parecem impossíveis de atingir no curto. Exatamente como a China vem fazendo. Olhando para o futuro e achando que, se não tentarem fazer o que estão fazendo, não irão mesmo conseguir. Nós, enquanto isso, debatemos e nos debatemos. Muitos lados da mesma mediocridade, às vezes; noutras, uma inarredável tendência carangueja de trazer de volta ao fundo do balde os poucos que, movidos a vontade e esperança, estão quase conseguindo sair dele. Tendemos a morrer todos, então, de inanição, enquanto noutras plagas pelo menos os que se salvam geram alguma, senão muita, esperança para os que precisam ser salvos.
A China, vale a pena notar, já é um grande mercado de informática, software, TV digital, telefonia e tudo o mais o que for insumo (e, em breve, resultado, certamente exportável) da sociedade da informação. Levando a coisa a sério, como estão, continuarão atraindo grandes multinacionais e investidores, talvez criando um círculo virtuoso como o que talvez quiséssemos criar se nos dedicássemos a isso de fato. Empregos não dependem mais de desenvolvimento industrial clássico, pois este emprega robôs. Trabalho vem da economia de serviços ou de informação e conhecimento, que precisa de gente, muita gente, muito bem educada. Vez por outra dá pena ver que não estamos entendendo, como país, o exato significado disto, e deixamos, vez após vez, passar as oportunidades para discutir gente, querendo discutir fábricas. É uma pena. Deveríamos e tomara que a viagem do presidente nos ajude nisto -aprender a ler melhor a China.
Mas é muito difícil ler os chineses, a China e a política de poder no país de Confúcio: a Voz do Brasil de lá, Xinhua, deu a notícia de que o presidente Lula havia deixado o Brasil para uma visita ao país. Durante e depois do que deveria ter sido um conjunto de grandes eventos de mídia, nenhum piu no site em inglês; pelo site em francês, passaram entre outros Phan Van Khai, primeiro ministro do Vietnam e Benjamin Mkapa, presidente da Tanzânia, que estava de visita a uma província e nada do presidente brasileiro. Lula só foi notado pelo site em espanhol, que parece tê-lo acompanhado amiúde. Infelizmente, não leio putonhgua, pra saber o que foi dito, sobre a visita, para a China; e se houve uma foto do presidente, não achei. Em todos os sites, o concurso de Miss Universo (ou seria Mundo?...) era certamente mais importante... Parodiando Delfim Netto: ir à China não é fácil, mas, comparando com o que vai acontecer quando os chineses vierem aqui, é muito fácil. O que eles dirão, e para quem, em qual site?... Tomara que, antes, nós saibamos o que diremos nós, para nós próprios, e onde.